Tenho por Vicent Lindon uma admiração quase adolescente, embora, ao contrário de muitas outras que felizmente abandonei, esta manteve-se intacta até hoje. Há uns anos gostava do seu ar rebelde e glamorosamente lazy, hoje gosto da imperfeição do seu rosto e do ar melancólico com que diz as palavras. Fui ver o filme "Pater" a pensar nele, por ele, e pela minha companhia que me "raptou" dos dias iguais. Entre tanta monotonia, o diferente é sempre uma aposta ganha. E assim aconteceu. "Pater" de Alain Cavalier é isso mesmo e também uma imensa conversa política entre muitos planos gastronómicos, porque entre pratos se chegam a grandes conclusões. O resto está lá tudo, manipulação, insinuações, intriga. Mas também as bem intencionadas ideias que raramente se concretizam por falta de votos e a seriedade quase pueril dos homens bons. Do outro lado, uma porta sempre aberta a ilimitadas conotações, porque nada é dito de forma explícita, tudo se insinua e sussurra, tudo é torto, imperfeito e enviesado, sem que lá falte nada. Cavalier é esta imagem de homem inteligentemente sedutor a quem dificilmente diríamos que não, mesmo tendo por certo o arrependimento e a vã glória
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
A propósito de um lanche ao fim do dia....(Texto antigo/Foto de Underskin)
Não quero o faz de conta, quero o que acontece,
espontaneamente e devagar, mesmo que os outros não vejam,
não sintam mas quero sentir.
Não quero que pareça, quero que seja.
Quero chegar e ver, não a visão do esforço do que se tenta ser, mas as janelas abertas
e o vento a entrar.
Os outros são o pó da estrada de que não me lembro.
O tempo já não é o mesmo, e já não consigo esperar, já não chega, já não satisfaz.
Abandonei para sempre a resignação e hoje só quero saber do sítio onde posso sempre
recomeçar.
Do que vale a pena, do que me afaga, do que me preenche e do que fica comigo,
o resto.... é como alguém me disse um dia,
não vale a pena viver tentando ser o que não somos.
domingo, 27 de novembro de 2011
Fez ontem dez anos que lhe dei a mão pela primeira vez.
Nessa altura ela ainda cabia inteira no meu colo, as mãos dela fechadas em novelo dentro das minhas
e os meus olhos cheios de lágrimas escondidas abraçaram-na
e ela era minha.
Disse-lhe ao ouvido que a adoraria para sempre,
e a vida encheu-se dela e de mim. E guardei-a pequenina,
e passei dias e horas a olhá-la a pensar como seria depois.
E hoje é depois mas ela ainda se senta no meu colo,
de lado e algumas vezes a correr,
ainda me diz ao ouvido, agora baixinho e depois da sua hora de armário, que me adora,
mesmo que antes disso me tenha detestado porque lhe disse que não.
Guardo-a dentro de mim hoje e sempre, e há dias em que,
sem que ela perceba, aperto-lha a mão devagar
e volto a esse momento em que a mão dela cabia toda na minha e ela era só minha.
Estas palavras e a música que ela hoje adora, mas que ainda cantamos as duas, alto e com o vento na cara, junto ao mar.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
TO A FRIEND
Naquele dia saí de casa e achei que não podia nada.
Subi as escadas duas a duas e lamentei a vida, circular, e minha.
A parte de mim que ficou por dizer.
O espaço por preencher
e a porta entreaberta.
E o meu riso sossegado onde permaneço,
como se não houvesse nessa hora meias verdades e a mesma estrada,
já não sei o que os meus olhos sentem quando ouço o mar.
Afastei a importância das coisas,
a sua definição concreta e o espaço que ocupam.
Para puder voltar ao que guardo sem deixar de partir.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
"When silence speaks so loud "
A propósito deste título e desta foto(que não são meus mas de "underskin" as usual):
Os amigos devem opinar, é uma obrigação de amigo, faz parte integrante da condição de ser amigo.
Nada pior de que um amigo que nada diz, nada mais perverso e frustrante do que aquele amigo com
quem finalmente decidimos desatar um qualquer nó e que, depois dessa odisseia que é abrir a porta
que geralmente fechamos, olha para nós e sem nada dizer sentencía um encolher de ombros e arquear
de sobrancelhas e nada. E nós à toa a pensar que não temos prova de que o que contámos é verdade, e
nada do que dissemos faz sentido...
Para um amigo não é preciso prova, o que dizemos é verdadeiro, podemos dizê-lo à nossa maneira,
sem que seja preciso provar nada. É claro que a nossa maneira é, por vezes, enviezada, torta, enfim, a
nossa. Mas para isso os amigos opinam, dizem que se calhar não é assim, que somos uns idiotas, que
há coisas muito mais importantes, mostram-nos outras respostas da mesma equação. Ou
então concordam inteiramente connosco (eu confesso que de vez em quando gosto de sentir esta
metade, talvez menos que já gostei,e outras vezes dou por mim a pensar que precisava que me
dissessem que não é assim), e ficamos com aquele sorriso parvo que sabe bem.
Um amigo toma partido e posição e não quer saber do que vão dizer e do bom senso do politicamente
correcto, e diz o que pensa e explica porquê, devagar e sem ofensa. Não se cala no silêncio repugnante
e apartidário.
É evidente que os amigos não são muletas e que na vida devemos ser capazes de travar as nossas
batalhas e dar conta dos pequenos dramas por nós mesmos, mas de vez em quando partilhar angústias
ou coisas boas faz-nos ser mais gente
terça-feira, 6 de setembro de 2011
PARA QUEM GOSTA DE VOLTAR
Há quem goste de voltar, talvez porque voltar tem em si uma redenção apaziguadora que nos devolve à vida o tempo da ausência. Voltar ao que é seguro e ao concreto dá-nos uma espécie de conforto, ali sabemos que podemos encostar a cabeça, ali sabemos de cor todos os caminhos e tudo parece fácil. Voltar é a rede e o cheiro a casa, o sofá da sala e o riso dos amigos e tudo o que nos é familiar.
Eu não entendia, porque para mim voltar é secundário, eu gosto é de partir. Do frenezim do que é novo, do que não se sabe bem como é, da surpresa, do turbilhão de ideias que nascem da novidade, do sentir que pode ser porque vale a pena, porque tudo se conjuga e faz sentido. Partir é o que me move e me preenche. Detesto ficar muito tempo a fazer a mesma coisa, muito tempo no mesmo sítio, muitas horas a repetir rotinas e dias iguais. Por isso gosto do Verão, os dias são infinitamente maiores, e o tempo ganha uma elasticidade anormal, perfeita para partir e ganhar um novo espaço. Fiquei assim depois de muito tempo à espera, tempo demais.
Descobri isto a pensar em quem gosta de voltar e, paradoxo confesso é certo, em mim que gosto de partir
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
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