domingo, 20 de fevereiro de 2011

À ESPERA


É uma dor que se entranha, que nunca vai embora que nunca passa.
Dias há em que parece não exisitir, em que no atropelo do tempo que corre nem se sente, nem se vê.
E por momentos acreditamos que somos gente outra vez, porque não a sentir é respirar melhor, é correr sempre mas sem os pés presos, é achar que o ínfimo vale a pena.
Outros dias ela chega silenciosa, sem avisar, de repente, sem marcar hora e fica à espera sempre à espera, como uma torneira aberta, à espera.
Foto de underskin

domingo, 2 de janeiro de 2011

O que vale a pena






Não quero o faz de conta, quero o que acontece
espontaneamente e devagar, mesmos que os outros não vejam,
não sintam, mas quero sentir.
Não quero que pareça, quero que seja.
Quero chegar e ver, não a visão do esforço do tentando ser, mas
as janelas abertas e o vento a entrar.
Os outros são o pó da estrada de que não me lembro.
O tempo já não é o mesmo e já não consigo esperar. Já não chega, já não satisfaz.
Abandonei para sempre a resignação e hoje só quero saber do sítio onde posso sempre recomeçar. Do que vale a pena, do que me afaga, do que me preenche e do que fica comigo a fazer parte de mim, o resto não vale a pena, não vale a pena viver a vida tentando ser o que não somos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Don't haunt this heart (Texas)




Atravesso a rua e sei que naquela janela, naquela janela,
os olhos atrás da franja,
os olhos que falam mas não se ouvem, ficaram naquela janela quando
se fez noite e não te vi mais,
o som suave atrás de mim, a passar ao meu lado atrás da franja, à minha espera e depois
só isso, o silêncio das palavras que nunca vieram.
Nesse dia, saí de casa e segui o mesmo caminho, mas a rua parecia deserta e eu não ouvia nada,
ignorei os sinais, porque faziam parte de ti, havia dias em que simplesmente não existias,
devia ter pressentido, devia, que aquele silêncio era sombrio e que o calor era frio e chovia.
Nunca mais desci a rua a pé mas há dias em que pareces estar à minha espera,
atrás da franja, da janela, atrás dos olhos e dos outros.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

HOJE

Hoje sinto o vento a bater-me na cara,
Hoje fechei as portas e vou de viagem.
Hoje sou eu e outra pessoa,
Hoje gosto de tudo.
Hoje a vida abraçou-me e sou feliz.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Há palavras que nos beijam

"Há palavras que nos beijam Como se tivessem boca, Palavras de amor, de esperança, De imenso amor, de esperança louca. Palavras nuas que beijas Quando a noite perde o rosto, Palavras que se recusam Aos muros do teu desgosto. De repente coloridas Entre palavras sem cor, Esperadas, inesperadas Como a poesia ou o amor. (O nome de quem se ama letra a letra revelado No mármore distraído, no papel abandonado) Palavras que nos transportam aonde a noite é mais forte, Ao silêncio dos amantes Abraçados contra a morte."

Alexandre O'Neill

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A SALA

Naquele dia percebi finalmente o significado de “palavras com som metálico”.
“Não respire”, seguido de “pode respirar”, vezes sem conta atirados a mim, naquela sala escurecida e gasta, vestida de móveis decrépitos e máquinas com botões.
Leio o meu livro e olho para aquela divisão, para aquelas pessoas, e penso, tantas vidas suspensas à espera da máquina, tantas vidas à espera. E eu à espera.
Ouço o meu nome e sinto os olhos atrás de mim.
A exposição do nosso nome em voz alta é odiosa, deixa-nos desnudados, num segundo toda a gente que não conhecemos sabe tudo acerca de nós, toda a vida num só nome. Os olhos levantam-se, fixam-se em nós, acompanham o erguer da cadeira, o guardar o livro, o pegar na carteira, e finalmente chegam ao rosto, à espera que a nossa cara vomite o que somos ou o que temos.
O ar de enfado, de rotina colada aos gestos, o ar de quem já não sente nada porque não vale a pena, porque o que é estranho se converteu em trivial.
Não ouço nada do que a senhora diz, vejo a cara dela, os gestos, parece simpática, mas as palavras estão enevoadas, chegam-me distorcidas, e a uma voz distante atiro monossílabos para não parecer mal.
Alguém devia dizer a estas pessoas que deviam pintar as paredes de branco e rasgar as janelas, é que quando falam connosco seria bom, pelo menos, que houvesse sol na sala.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O REENCONTRO


Aquela foi a noite do reencontro, de relembrar momentos e o tempo que aconchegaram dentro de si e que agora voltara.
Aquela foi a noite há muito prometida cheia de abraços e de risos,
afagada, vivida e a primeira de muitas
com que irão preencher os vazios e dar sentido à vida.